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“Vivemos a angústia e o prazer da objetividade”, aponta especialista


A despersonalização das interações humanas foi o tema abordado por Luiz Algarra, do Instituto InterSistêmico. O palestrante, especializado em fluxos de conversação para fins humanos, abriu a sessão convidando os espectadores a fazer uma reflexão com o colega ao lado sobre o tema “Sistemas institucionais e humanos e como a individualidade pode ser agregada às estruturas centralizadoras na construção de melhores resultados”. O objetivo foi mostrar como cada realidade é diferente a partir da perspectiva do indivíduo.

O palestrante definiu a diferença entre o “dever-ser” e o “ser-estar”, ao afirmar que o viver humano não tem propósito. “No caso do inseto, quando ele sai do ovo, ele sai pela floresta e depende de sua configuração biológica para ver o que vai acontecer. No nosso caso, quando o nosso filhote nasce, ele não está pronto. Não existe outro ser humano vivo que não tenha sido cuidado por outro. Nascemos em um estado de incompletude”, afirmou.

Nessa linha de raciocínio, Luiz Algarra trouxe exemplos da evolução dos chamados seres sociais, cujos diálogos são baseados em códigos comunicacionais. “Isso vem de um fluxo de interações recursivas que, durante milhares de anos, nos colocou numa perspectiva a partir do fundamento do viver do outro”, explicou.

Em sua concepção, passamos a estabelecer outra relação uns com os outros, a do “dever-ser”. “O dever-ser surge a partir da nossa negação do outro. Nossa matriz é amorosa, numa dinâmica relacional em que o viver do outro é tão importante quanto o nosso próprio viver”. Dentro desse contexto, Luiz Algarra defendeu que vivemos contextos desumanizantes, distintos de nossa deriva constitutiva, e usou o exemplo de homens na guerra que matam sem questionar o porquê.

De acordo com o especialista, nossa percepção depende do repertório que já temos. “Assim caminhamos juntos achando que todos vivem a mesma realidade e que essa realidade existe”.

No campo institucional, Luiz Algarra afirmou que “vivemos a angústia e o prazer da objetividade. Buscamos razões para as pessoas negarem a realidade que temos do mundo. Nos comportamos como se a realidade fosse objetiva, mas ela não é”.

Na tentativa de solucionar essa despersonalização, principalmente no ambiente organizacional, ele garante que é preciso inserir os discursos em seu respectivo contexto. “Temos que abrir espaços dentro das organizações para expressões humanas legítimas. Ampliar esses espaços de interações humanas pode trazer qualidade para os nossos projetos”.

Para Luiz Algarra, essa perspectiva também se aplica às redes, que ele classifica como apenas um meio catalisador da mudança. “As redes não criam pontes, mas passagens rápidas para atravessar os vãos sociais. Não são as redes que vão trazer essa aproximação. Tudo começa na dimensão do indivíduo”.

O palestrante ainda citou o trabalho realizado por seu instituto em parceria com a Natura, que consistiu em convencer as áreas internas a conversar com o cliente final. “A gente cresce com paradigmas na organização do que não podemos fazer. Todos podem e devem falar com o usuário final e incluir a opinião deles em tudo que puder”.